quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Os Sofrimentos do Jovem Werther

- Ai de vós todos tão sensatos! - exclamei sorrindo. - Paixão! Embriaguez! Loucura! Conservai-vos tão serenos, tão desinteressados, vós, os moralistas; cobris de injúrias o bêbado, detestais o insensato, passais ao largo como o sacerdote e agradeceis a Deus, tal o fariseu, por não vos ter feito iguais a eles. Mais de uma vez me embriaguei, minhas paixões nunca estiveram longe da loucura e não me arrependo nem de uma coisa nem de outra, apesar de terem-me ensinado que sempre se haveria de menosprezar todos os indivíduos excepcionais que fizeram algo de grandioso, algo de aparentemente irrealizável!

Mas também na vida cotidiana é insuportável ouvir quase sempre gritar para qualquer um empenhado numa ação livre, nobre, inesperada: "É um bêbado, está louco!" Envergonhai-vos, vós todos tão sóbrios! Envergonhai-vos, vós todos tão sensatos!

Lyceum

[98] Estas são as lei fundamentais universalmente válidas da comunicação escrita: (1) é preciso ter algo que deva ser comunicado; (2) é preciso ter alguém a quem se possa querer comunicá-lo; (3) é preciso poder comunicá-lo efetivamente, partilhá-lo com alguém, não apenas se exteriorizar sozinho; senão seria mais acertado calar.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

domingo, 25 de setembro de 2011

A Gaia Ciência

(§279) Amizade Estelar. - Nós éramos amigos e nos tornamos estranhos um para o outro. Mas está bem que seja assim, e não vamos ocultar e obscurecer isto, como se fosse motivo de vergonha. Somos dois barcos que possuem, cada qual, se objetivo e seu caminho; podemos nos cruzar e celebrar juntos uma festa, como já fizemos - e os bons navios ficaram placidamente no mesmo porto e sob o mesmo sol, parecendo haver chegado a seu destino e ter tido um só destino. Mas então a todo-poderosa força de nossa missão nos afastou novamente, em direção a mares e quadrantes diversos, e talvez nunca mais nos vejamos de novo - ou talvez nos vejamos, sim, mas sem nos reconhecermos: os diferentes mares e sóis nos modificaram! Que tenhamos de nos tornar estranhos um para o outro é a lei acima de nós: justamente por isso devemos nos tornar também mais veneráveis um para o outro! Justamente por isso deve-se tornar mais sagrado o pensamento de nossa antiga amizade! Existe provavelmente uma enorme curva invisível, uma órbita estelar em que nossas tão diversas trilhas e metas estejam incluídas como pequenos trajetos - elevemo-nos a esse pensamento! Mas nossa vida é muito breve e nossa vista é muito fraca, para podermos ser mais que amigos no sentido dessa elevada possibilidade. - E assim vamos crer em nossa amizade estelar, ainda que tenhamos de ser inimigos na Terra.

sábado, 24 de setembro de 2011

Máximas e Pensamentos

É por nosso amor-próprio que o amor nos seduz. Ah! Como resistir a um sentimento que embeleza aos nossos olhos aquilo que temos, devolve-nos aquilo que perdemos e dá-nos aquilo que não temos?

domingo, 18 de setembro de 2011

A Fina Arte de se Tornar um Homem

1. Acima de tudo, evite falar de si mesmo.

2. É melhor recusar um favor com classe do que garanti-lo vergonhosamente.

3. Mantenha olhos e ouvidos abertos, e boca quase sempre fechada.

4. Piadas ruins e risada alta fazem você parecer um bufão.

5. Nunca pareça mais sábio e mais inteligente do que as pessoas que estão ao seu redor.

6. Não admire nada exageradamente.

7. Faça apenas uma coisa por vez.

8. A paciência é o único meio de fazer com que coisas ruins não piorem.

9. Seja sério, mas não enfadonho.

10. Fale com frequência, mas jamais longamente.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Paidéia - Introdução

Paidéia, a palavra que serve de título a esta obra, não é apenas um nome simbólico; é a única designação exata do tema histórico nela estudado. Este tema é, de fato, difícil de definir: como outros conceitos de grande amplitude (por exemplo os de filosofia ou cultura), resiste a deixar-se encerrar numa fórmula abstrata. O seu conteúdo e significado só se revelam plenamente quando lemos a sua história e lhes seguimos o esforço para conseguirem plasmar-se na realidade.

Ao empregar um termo grego para exprimir uma coisa grega, quero dar a entender que essa coisa se contempla, não com os olhos do homem moderno, mas sim com os do homem grego.

Não se pode evitar o emprego de expressões modernas como civilização, cultura, tradição, literatura ou educação; nenhuma delas, porém, coincide realmente com o que os Gregos entendiam por paidéia. Cada um daqueles termos se limita a exprimir um aspecto daquele conceito global e, para abranger o campo total do conceito grego, teríamos de empregá-los todos de uma só vez.

E no entanto a verdadeira essência da aplicação ao estudo e das atividades do estudioso baseia-se na unidade originária de todos aqueles aspectos – unidade vincada na palavra grega –, e não na diversidade sublinhada e consumada pelas locuções modernas.

Os antigos estavam convencidos de que a educação e a cultura não constituem uma arte formal ou uma teoria abstrata, distintas da estrutura histórica objetiva da vida espiritual de uma nação; para eles, tais valores concretizavam-se na literatura, que é a expressão real de toda cultura superior. E é deste modo que devemos interpretar a definição do homem culto apresentada por Frínico (Cf. φιλόλογος [filólogo] p. 483 Rutherford):

Φιλόλογος ὁ φιλων λόγους και σπουδάζων περι παιδείαν.

[filólogo, o amigo da razão que busca intensamente a paidéia]

(Werner Jaeger, Paidéia, “Introdução”, p. 1)

Descida ao Hades

Descida ao Hades – Também eu estive no mundo inferior, como Ulisses, e frequentemente para lá voltarei; e não somente carneiros sacrifiquei, para poder falar com alguns mortos: para isso não poupei meu próprio sangue. Quatro foram os pares [de mortos] que não se furtaram a mim, o sacrificante: Epicuro e Montaigne, Goethe e Spinoza, Platão e Rousseau, Pascal e Schopenhauer. Com esses devo discutir quando tiver longamente caminhado a sós, a partir deles quero ter razão ou não, a eles desejarei escutar, quando derem ou negarem razão uns aos outros. O que quer que eu diga, decida, cogite, para mim e para os outros: nesses oito fixarei o olhar, e verei seus olhos em mim fixados. – Que os vivos me perdoem se às vezes me parecem sombras, tão pálidos e aborrecidos, tão inquietos e oh! tão ávidos de vida: enquanto aqueles me aparecem tão vivos, como se agora, depois da morte, não pudessem jamais se cansar de viver. Mas o que conta é a eterna vivacidade: que importa a “vida eterna” ou mesmo a vida!

(Nietzsche, Humano Demasiado Humano II – Opiniões e Sentenças Diversas, §408)

terça-feira, 17 de maio de 2011

Minuto de Silêncio

Não foi em tua presença, não foi no jardim e nem na rua que eu li tua carta, eu tinha plena consciência de que era tua última carta, por isso quis lê-la sozinho, sozinho no meu quarto. Apalpando o envelope eu senti que era um cartão-postal; era uma fotografia, um convite para visitar um museu de ciências marítimas, a foto mostrava um golfinho folgazão que tinha saltado para os ares e que, pelo jeito, calculadamente, queria aterrisar numa onda. Havia uma única frase no verso: "Love, Christian, is a warm bearing wave", assinado: Stella. Apoiada na gramática inglesa, eu coloquei o cartão ao lado do retrado de nós dois e senti uma dor involuntária ao pensar que eu poderia ter perdido alguma coisa ou que me haviam tirado alguma coisa que eu desejara mais ardentemente do que qualquer coisa.

domingo, 24 de abril de 2011

quinta-feira, 31 de março de 2011

Tel Quel

Si mesmo.
Conhecemos de nós mesmos apenas aquilo que as circunstâncias nos permitem conhecer (ignorava diversas coisas sobre mim mesmo)
[...]
Toda pesquisa sobre si mesmo, todo acidente que faz com que cada um possa se adaptar, todo ponto de vista incomum nos mostra um si mesmo que não conhecíamos. Não se tem certeza se existe algum sentido em se conhecer, nem se alguém pode conhecer melhor outra pessoa que a si mesmo. A hesitação, o trabalho intelectual, o remorso, há muitas provas dessa estranheza.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Humano Demasiado Humano

Falta de Confidência. - A falta de confidência entre amigos é uma falha que não pode ser repreendida sem se tornar incurável.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Elementos Estruturalistas - uma investigação sobre a natureza do número

A partir das reflexões de Frege em seus Grundlagen der Arithmetik, destaca-se como o fio condutor da presente dissertação o problema que se refere à determinação da natureza numérica. A análise que Frege dedica a este problema almeja caracterizar a noção de número com o auxílio da noção de objeto lógico, e tal aproximação receberá um intenso ataque teórico por parte de Paul Benacerraf. Este ataque teórico, por seu turno, será auxiliado pela sugestão de que, na medida em que o interesse dos matemáticos (enquanto matemáticos) permanece em um âmbito estruturalista, uma pesquisa filosófica sobre a matemática deveria, em princípio, preservar semelhante aspecto. Esta argumentação de Benacerraf, aliada aos trabalhos anteriores do grupo Bourbaki, impulsionou as mais diversas pesquisas no âmbito estruturalista, constituindo-se os trabalhos de Stewart Shapiro como um de seus mais interessantes desenvolvimentos. São assim apresentadas as bases ontológicas e epistemológicas que sustentam tal teoria – intitulada como estruturalismo ante rem – para, por fim, se delinear um histórico de tais concepções. Sublinham-se, então, alguns debates ocorridos ao final do século XIX e início do século XX, com a intenção de se iluminar as heranças conceituais de Shapiro e alguns possíveis pressupostos de Benacerraf, oferecendo-se alguma notoriedade às figuras do matemático alemão Richard Dedekind e do grupo francês Nicholas Bourbaki.

Palavras-Chave

Filosofia da Matemática; Estruturalismo; Problema Ontológico